Franco Velasco

Nascido em 1780 em Salvador e falecido na mesma cidade em 1833, é pouco provável tenha Antônio Joaquim Franco Velasco aprendido seu ofício diretamente com José Joaquim da Rocha - embora sem dúvida o tenha conhecido -, vez que sua produção não acusa maior influência desse mestre, até por se inclinar para o retrato e a figura de modelo vivo e não mais, como ocorre com o próprio Rocha e os demais pintores da geração anterior à sua, para a pintura perspectivista. Mesmo assim, executou trabalhos decorativos em igrejas, como a mencionada pintura do forro em caixotões do Bonfim, ou como a da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência - que, aliás, somente iniciou, visto como faleceu dois anos depois, cabendo a seu aluno José Rodrigues Nunes concluí-la a partir dos esboços originais.

Franco Velasco destacou-se dissemos, como retratista, revelando-se nesse gênero colorista apenas discreto, embora bom desenhista, senhor de fatura apurada e capaz de penetrar a psicologia dos seus retratados; deixou, entre vários outros, um retrato do Imperador Pedro I, sendo-lhe também atribuídos dois excelentes trabalhos hoje na Fundação Castro Maya do Rio de Janeiro: Retrato de Senhora e Menino com Cachorro, ambos datados de 1817, mas tendo pouco a ver, aparentemente, com a maneira do artista.

Do ponto de vista estilístico, Franco Velasco representa a singular mistura de elementos setecentistas herdados da geração anterior e dos novos ingredientes neoclássicos que começavam a circular no Brasil nos começos do século XIX. Se, no que respeita à pintura religiosa, esse artista não pode sustentar um confronto com José Joaquim da Rocha, e nem mesmo com José Teófilo de Jesus, não há dúvidas de que seus trabalhos na Igreja do Bonfim revelam olho experimentado e facilidade de execução, além de um conhecimento da História da Arte que dificilmente se poderia encontrar em outro qualquer artista bahiano ou brasileiro da época. Com efeito, como explica Manuel Raimundo Querino, Franco Velasco freqüentava as bibliotecas dos leitores e prelados que retratava, nas quais se instruía "lendo a vida e assimilando os grandes mestres da arte", e era "versado em história e amigo das letras". Dessa familiaridade com a vida e os trabalhos dos mestres é que sem dúvida lhe terão advindo, entre outros, assunto e composição de sua obra mais importante - justamente a pintura distribuída em caixões, em procedimento já de há muito anacrônico, do teto da Igreja do Bonfim, que Carlos Ott descreve como "uma romaria de marinheiros, salvos de naufrágio, ao Sr. do Bonfim, tema novo, em cuja composição não podia aproveitar estampas de outros pintores como o faziam anteriormente", mas que Clarival Valladares com argúcia descobriu ter sido parcialmente calcada em obra do obscuro pintor francês Gabriel François Deyen (1726-1806), Le Miracle des Ardents, feita em 1767 para a Capela de Santa Genoveva da Igreja de São Roque em Paris, onde a fotografou aquele saudoso estudioso e amigo. Diga-se aliás que, mesmo antes de Clarival, já Manuel Lopes Rodrigues percebera uma reminiscência, no grupo formado pela mulher que aponta o Senhor do Bonfim ao filhinho que uma aia leva ao colo, das enérgicas e movimentadas figuras de Prud'homme no quadro A Justiça Divina perseguindo o crime. De qualquer modo, seria injusto julgar Franco Velasco com demasiado rigor por esses pequenos empréstimos tomados a obras alheias, pois esse era procedimento corriqueiro na época, sem o qual nosso pintores coloniais não teriam c temas da riquíssima iconografia cristã.

 

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